miguel cabral
desligue a luz dos ambientes vazios
11.15.2009
No som da máquina de lavar roupa, no som da lavagem da louça, touça para curtir consigo e dizer adeus,
rebento o airpack, desfaço e refaço o origami, levanto-me do chão em relva, visto o casaco da tanga, ganga gasta. Agora apanho os meus pés e digo: para o teatro, o tal, ou qualquer um. Quero ir ver os actores.
Tudo em mim sempre esteve normal. Não me reconheço. Já não olho os prédios e o meu pescoço com a mesma crueza. Não sinto o abandono, o osso ruído. Sinto os meus lábios, dados aos outros com vapor.
A dor cessou. Marcarei o meu corpo contigo, com todos os sinais necessários para me lembrar sempre das descidas, das caídas e das movidas sem retorno.
Cassavetes dizia que uma boa história começa quando perdes o caminho para casa. Tive de fazer certas coisas sozinho. Abismos só de mim e de tanta gente, e que mistérios tão vulgares. Sentir a vida nas pontas dos dedos e na planta dos pés. Mais tarde ou mais cedo, temos de pôr o nosso animal a passear.
Que o pão e o tino nunca nos faltem
para conversarmos
para celebrarmos
sem dogmas e opressões
Há razões fortes a desenhar encontros
Há a psicologia das cores e das sombras
O papel vegetal, vincal, ornamental
e os valores feudais aprendidos e esquecidos
Um ritual-comunhão de todos os bens
saboreado a várias vozes numa floresta de enganos
E se a chuva caísse agora
E se a chuva
Era a estufa no meu coração a explodir?
Sem me iludir
Depois da correria lá fora, e embora admitir
Fui chuva. Fui amante.
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